Boi com chip na Amazônia: como funciona o rastreamento se está livre de desmatamento
No Pará, produtores recorrem à tecnologia para enfrentar um dos maiores problemas da pecuária na região

Como maior exportador de carne bovina no mundo, o Brasil sofre pressões para demonstrar que o produto, principalmente quando vindo da Amazônia, não esteja ligado a áreas de desmatamento ilegal. A região tem a maior concentração de rebanho bovino no país.
Uma das soluções é rastrear o gado individualmente, em todas as suas fases de vida. Por enquanto, o que existe são iniciativas privadas. Pecuaristas cobram do governo federal uma política nacional que dê incentivos e estrutura para implementar o rastreamento.
O desafio do Brasil
Os principais desafios são: o Brasil não tem hoje uma política pública nacional para rastrear o gado; um acordo entre frigoríficos da Amazônia e o Ministério Público Federal prevê o monitoramento de fazendas, mas a adesão é voluntária; a maior parte das empresas só checa a situação dos fornecedores diretos (fazendas que engordam os bois), sem verificar os indiretos (fazendas de cria e recria). É este gargalo que o rastreamento com chips pretende resolver.
A União Europeia tem sido mais dura: a partir de 2025, empresas do bloco serão proibidas de comprar produtos de áreas com desmatamento. A China também começou a se movimentar, com regras publicadas em 2021 pela Associação Chinesa da Carne.
'Carne Legal'
Os frigoríficos começaram a monitorar fornecedores em 2009, após o relatório 'Farra do boi na Amazônia', do Greenpeace. No mesmo ano, grandes frigoríficos assinaram Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) com o MPF, comprometendo-se a não comprar bois de áreas desmatadas — iniciativa conhecida como Carne Legal, que hoje alcança 85% dos frigoríficos relevantes da Amazônia Legal.
'Boi na Linha'
Em 2020, o Imaflora e o MPF lançaram o Protocolo Boi na Linha, que unificou critérios de verificação: além do desmatamento ilegal, as empresas devem checar trabalho escravo e sobreposição com terra indígena, quilombola e unidades de conservação. As informações vêm do cruzamento de imagens de satélite com documentos como CAR, GTA, embargos do Ibama e lista suja do trabalho escravo.
O problema do fornecedor indireto
'Às vezes, o animal passa em quatro, cinco fazendas antes de chegar na propriedade que vai vender para o frigorífico. Então, a gente só está olhando para a última. A gente precisa olhar para as demais', ressalta o procurador Daniel Azeredo, do MPF.
Segundo o Imaflora, 30% das 50 mil propriedades rurais da Amazônia têm alguma inconformidade com o protocolo Boi na Linha — majoritariamente fornecedores indiretos ou fazendas que vendem para frigoríficos sem TAC.
Como é o 'CPF' do boi
O pecuarista Roberto Paulinelli, dono do Frigorífico Rio Maria, no Pará, monitora fornecedores indiretos desde 2010, mas só em julho de 2023 começou a usar brincos e chips para rastreamento individual. A iniciativa, chamada Primi (Projeto de Rastreabilidade Individual e Monitoramento dos Indiretos), foi criada pela Niceplanet em parceria com a certificadora SBcert.
O sistema usa o Sisbov (Sistema Brasileiro de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos), criado há 22 anos pelo Ministério da Agricultura para atender exportações à União Europeia. No SMGeo Indireto, a Niceplanet vincula as numerações do Sisbov de cada boi aos dados socioambientais da fazenda, com base no Protocolo Boi na Linha. O produtor pesquisa a fazenda fornecedora; se não houver bloqueio, segue a compra. Em seguida, pede ao Ministério da Agricultura as numerações Sisbov e as grava em brincos e chips colocados nas orelhas dos animais.
Quanto custa rastrear
Para fabricar brincos e chips, Paulinelli teve custo único de R$ 7 por boi; a certificação custa R$ 13 por animal. O bastão eletrônico que lê o chip sai por R$ 5 mil. Bretes ou troncos para conter os animais variam de cerca de R$ 20 mil (simples) a R$ 100 mil ou mais (hidráulicos).
Soluções para pequenos produtores
O pecuarista Mauro Lúcio Costa diz que pequenos criadores podem usar alternativas mais baratas, como brinco com tatuagem ou 'botton' (sem o eletrônico). 'O ideal mesmo é colocar o chip. Ele minimiza, zera a margem de erro', afirma. 'Teria que dar um jeito de viabilizar o bastão para um grupo de produtores'.
Brasil precisa de política pública
Pecuaristas e ambientalistas defendem que o Estado se mobilize para criar uma política pública nacional. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, afirmou em maio que o governo abriu um grupo de trabalho para discutir o tema. Durante a COP28, em Dubai, o governador do Pará, Helder Barbalho, prometeu rastrear todos os 24 milhões de bois do estado até 2026 — ano em que Belém sediará a COP30 — por meio do programa de Rastreabilidade Bovídea.
Com informações de Paula Salati e Gustavo Wanderley — g1.
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